A expressão de um artista torna-se mais orgânica, genuína e universal quando sua necessidade, muitas vezes obsessiva, de representar seus desejos, ideologias e desvãos, transferem-se de forma pungente para a matéria sobre a qual ele decidiu imprimir tais questões. Funde-se assim conceitos e resoluções formais, subjetividades e estética.

É por meio de códigos capazes de segredarem uma miríade de sensações, reflexões e poéticas que uma obra bem acabada deve ser desvelada em seus labirintos simbólicos. Uma obra de arte, no entanto, dista das ciências exatas e, portanto, jamais permite desvelar-se por inteira. Uma obra de arte, enfim, pode nos interrogar sem esperar uma resposta lógica, nos comover por algo não claramente explicável,  nos levar a refletir sobre algo que sequer o artista havia calculado.

             Marilde e Tatiana Stropp, mãe e filha, duas gerações, duas artistas, duas talentosas criadoras de obras capazes de mobilizar nosso olhar como quem enfeitiça a percepção. As obras de ambas, aqui apresentadas, falsamente repousam sobre a superfície. Um olhar minimamente atento perceberá que elas se rebelam contra a platitude do plano, não deixando-se enclausurar pelas linhas que encerram o quadro.

            As pinceladas cromáticas de Tatiana sobre o alumínio geram um amálgama surpreendente entre tonalidades, brilhos, opacidades e volumes que saltam do plano criando, por meio das diversas temperaturas e ondas de cor, uma instabilidade que excitam nossa percepção visual. A instabilidade é tamanha que ao nos deslocarmos mantendo os olhos fixos na obra, outras relações limítrofes entre os planos vão surgindo como uma espécie de vertigem caleidoscópica.

            Enquanto os limites da reflexão da luz pelas cores é a fonte de investigação poética de Tatiana, Marilde opta por criar um intenso e sedutor campo semântico num plano obliterado de luz. A negritude salta do fotográfico para  tingir, em diferentes densidades, o papel e o tecido que a partir de um ponto de contato improvável, extravasam fisicamente os limites do quadro.

            Essas preciosas obras negras, mesmo trabalhando em oposição ao êxtase cromático, conseguem imprimir ritmo e cadência que tomam de assalto nosso campo sensorial. Eis que o negro revela-se, então, não como ausência, mas como latência. Temos a clara sensação de que a qualquer momento algo pode emergir desse território também apenas aparentemente em repouso.

            Embora trabalhando em plataformas aparentemente opostas, as duas artistas pertencem de fato à mesma família, não apenas sanguínea, mas poética. Ambas se esmeram no dom de iludir e de nos fazer perceber, pela via da arte - metáfora da vida - que há lugares intensos e mágicos a nossa espera em algum lugar além daquilo que a aparente realidade nos apresenta. Revolver o plano até que nos deparemos com outras possibilidades de perceber o entorno. Trabalhos que se esmeram nos devaneios estéticos, mas findam por obter um potente viés político. A arte como refúgio, rebeldia e esperança.

 

Eder Chiodetto

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